Pelas 13h33m do dia 21 de Setembro de 2007, o teu pai enviou-me a seguinte mensagem:
"A C. acabou de descer para a sala de parto. Depois digo mais coisas. Beijos."
Lembro-me exactamente do que estava a fazer nesse momento: almoçava com o teu tio M. num restaurante da Baixa de C. onde ambos trabalhamos. Não consegui comer mais depois desta missiva.
Mais tarde o teu pai enviou nova mensagem:
"Vou entrar agora na sala de partos. Rezem e torçam por nós. Até já".
Pelas 16.45m saí do meu trabalho com a minha amiga T., que seria a minha heroína, porquanto foi ela que me fez chegar até a ti.
Entrámos ambas na Maternidade mas só a licenciatura dela a permitiu passar as portas largas da urgência. Fiquei à voltas naquele corredor, a queimar solas e a desgastar o chão daquele espaço sem cor. A médica de serviço era, milagrosamente, uma colega próxima dela e tudo foi mais facilitado.
A mensagem chegaria uns minutos depois (que a mim me pareceram uma eternidade). A tua mãe tinha apenas dois dedos de dilatação por aquela hora o que antevia dois cenários possíveis: ou a sua acelaração para os oito cm (que fiquei a saber que é o ideal para a realização do parto) ou o encaminhamento para cesariana. Foi essa mensagem que levei aos teus avós.
Aguardar era a única solução.
Decidi vir para casa e refugiar-me nos braços do teu tio M. que nessa noite tocou piano para ti. O meu telefone tocou às 21.10 e a minha amiga T. anunciava-me que a dilatação da tua mãe estava completa e que iria realizar-se o parto. (....)
O mundo parou.
Telefonei histérica para a tua avó e para as tuas tias paternas C. e C.. Pedi à T. que viesse buscar-me a casa e que tentássemos a proeza dessa tarde, sabendo de antemão que só ela entraria. Naquela Maternidade, como na maioria, só é permitido ao pai assistir ao parto (na sua ausência algúem que a mãe escolha, o que obviamente não era o caso!).
A auxiliar da urgência era (vê como o mundo é justo) utente da minha amiga T. e deixou-nos entrar a ambas. As portas estavam abertas e o meu coração galopava num misto medo, alegria, fé e emoção desmedida. Já dentro do elevador o telefone da T. tocou e ambas percebemos que era o anúncio do teu nascimento.
O elevador desembocou num hall estreito onde havia um armário cheio de batas. A T. vestiu uma e mandou-me esperar. Não havias ainda ordens para eu passar dali.
Mas daquele metro quadrado eu conseguia ouvir o teu pai e a T. a rir e sabia já que a magia havia acontecido.
Nesse momento a T. conseguiria o impensável: dar-me uma bata e fazer-me entrar dentro da sala mais colorida de sempre: aquela que te viu nascer.
Entrei embalada por uma emoção inexplicável e dei um abraço ao teu pai como provavelmente não darei outro nas nossas vidas.
Ambos chorávamos.
Corri para ti já a ser vestido por uma enfermeira (com o nome da tua avó G.) e tu estavas a abrir, pela primeira vez, os olhos para o mundo...eras lindo e muito pequenino. Lembro-me que ainda tremia quando te chamei de "ratinho" e a enfermeira ripostou dizendo que eu não podia insultar-te... Manobrava-te com mãos mágicas, manuseando-te de forma perfeita mas nem por isso menos assustadora...Só depois fui ver a tua mãe, deixando para o fim, numa escala que não elaborei, a tua (nossa) heróina.
Estava resplandecente, com uma força inigualável e uma felicidade avassaladora. Imune à dor das inúmeras barbáries que lhe estavam a ser feitas, alheia a tudo, a perguntar por ti, a rir com os lábios repletos de baton hidratante (com os quais a médica gozaria mais tarde: "mas quem é que pinta os lábios para vir para a sala de parto?!).
A médica mostrar-nos-ia a tua placenta, o espaço onde tu nadaste nove meses, imagem que não vou esquecer mais na vida. Tirámos fotografias tuas, apesar de ser contra o regulamento interno e todos ríamos, transformando a sala de partos num espaço de emoções infinitas...
Minutos depois, o teu médico viria dizer à sala que estava numa pessoa no corredor muito ansiosa e que seria melhor ver quem era. Pois, o teu avô T. conseguiu a proeza de furar a segurança e subir e também ele conseguiu ver-te já ao colo da tua mãe na cama que te levaria para o teu quarto. Também ele chorava emocionado e dava beijinhos à tua mãe (mais tarde falaria de uma conversa importantíssima que havia tido com ela antes da descida para a sala de partos). Um dia tens que perguntar-lhe qual foi.
E foi ele que deixou cair uma das suas grandes frustações quando percebeu a importência da T. naquele momento: "mas porquê que eu não tenho nenhum filho médico?!" (...)
O mundo recebeu-te a sorrir.
2 comments:
Enquanto esperava pela dilatação (que demorou 7 horas!!) apareceu a T.! Estava ainda e só com 2 dedos de dilatação e estava uito ansiosa...pedi-lhe para levar-te levar um recado : "Tu não aguentas ter um filho!!!!" (opinião baseada no facto de quase cair a casa para te arranjar as sobrancelhas!!! ;P)
Tenho a dizer que acho toda esta panoplia de iniciais uma iniciativa deveras abixanada... mas ja que o sobrinho tambem é meu, decidi por bem deixar a minha marca pessoal no blog do... Mar.
Partilho e apoio a decisao da minha irma C, uma vez que a minha outra irma Pi nao vai aguentar os sobressaltos de um parte.. Ca estaremos para ver :) Mar, foste uma preocupaçao constante para todos nos, mas felizmente estas bem e de perfeita saude. Muitos beijinhos do Tio N
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