Estive dois dias a debater o sofrimento das crianças institucionalizadas e aprendi que estancar a sua dor não passa apenas por cicatrizar as suas feridas. Os sucalcos profundos das suas vidas deixam marcas irreversíveis nos seres em devir que representam. E a lei diz que à falta de uma parentalidade capaz, urge encontar para elas cuidadores securizantes.
E quando quem decide não é Deus?
E quando sou eu querido, que tenho que deliberar? Delinear o seu trajecto? Escolher-lhe o lar, o cuidador e o meio para chegar a ele? Traçar um sucalco na sua vida em devir?
Angustio-me de não saber ouvi-la, de não a perceber, de deliberar em função de outras mil vicissitudes que não a do superior interesse dela...
No encontro nocturno inerente à formação, recebemos um telefonema que ditava a morte de uma criança durante a fuga do Lar de Crianças e Jovens onde estava acolhida. Que ironia meu lindo! Debatíamos a sua protecção e constávamos a ausência dela. Foi notícia de primeira página no jornal da cidade onde tu e eu nascemos, com destaque para uma fotografia anormalmente grande do corpo da menina, onde era referido que se recusava a frequentar as consultas médicas de que necessitaria.
Passou por tanta gente e ninguém a viu, ninguém a sentiu ou percebeu. E esfumou-se.
E um dia destes, talvez Deus decida a mudança do meu rumo profissional...
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